As plantas invasoras são inimigas silenciosas porque avançam quando o sistema está desequilibrado
Quando se fala em ameaças à produtividade da pecuária, pensa-se imediatamente em doenças, pragas ou problemas climáticos. Entretanto, existe um adversário silencioso que compromete milhões de hectares de pastagens brasileiras e rouba lucros sem que muitos produtores percebam: as plantas invasoras.
Estima-se que 80% dos pastos cultivados nos cerrados do Brasil Central apresentam algum nível de degradação com consequente perda de produtividade, e a alta ocorrência de plantas invasoras é um dos principais empecilhos para reverter esse processo. Mais do que um problema estético, essas plantas representam perdas econômicas mensuráveis e crescentes.
O que torna uma planta “invasora”
O termo “invasora” refere-se a espécies que se instalam em um ecossistema de forma não planejada. Já “daninha” é usado para aquelas que causam prejuízo direto à produtividade ou dificultam o manejo da área. Uma planta nativa pode tornar-se daninha se seu crescimento comprometer o aproveitamento do pasto.
As plantas invasoras possuem características que as tornam particularmente problemáticas: adaptam-se facilmente a diferentes climas e solos, têm sistema radicular robusto, produzem muitas sementes, desenvolvem-se rapidamente e disseminam-se com facilidade. Muitas sobrevivem mesmo em períodos de estiagem, competindo agressivamente com as forrageiras por água, luz e nutrientes.
Por que surgem nas pastagens
A infestação por plantas invasoras não é acidental. Vários fatores contribuem para o aparecimento e expansão de plantas daninhas: degradação do solo, solos compactados com baixa fertilidade, falta de rotação ou uso contínuo sem descanso, e deficiências no manejo de pastagem.
Erros comuns incluem excesso de pressão de pastejo, roçada inadequada quanto ao número ou época das operações, não reposição de nutrientes no solo, plantio de gramíneas não adaptadas às condições locais e erros na formação da pastagem. Sementes também chegam através do trato digestivo de animais oriundos de outras áreas infestadas.
Quando plantas invasoras começam a aparecer competindo com a forrageira, é sinal de alerta: o pasto está entrando em algum estágio de degradação, demonstrando que o sistema de manejo está inadequado.
Os prejuízos vão além da competição
O impacto das plantas invasoras na produtividade é dramático. Para cada quilo de matéria verde produzida pela planta daninha ocorre redução na produção da pastagem da mesma ordem. No caso de pastagem recém-formada, a produtividade cai 48% em 120 dias de convivência com as daninhas, comparado com área livre de competição, conforme estudos com Brachiaria brizantha.
Mas os prejuízos transcendem a simples competição. Pesquisa recente conduzida no Missouri revelou que bovinos permaneceram 72% do tempo nas áreas livres de invasoras, deixando parte significativa da forragem disponível sem consumo. Os animais fazem escolhas claras no momento do pastejo, evitando áreas infestadas mesmo sem barreiras físicas.
Animais mantêm um raio de distância de até 1,5 metro das plantas com espinhos, e cerca de 1 metro daquelas sem espinhos. Na prática, isso significa perda direta de área útil: 500 plantas invasoras sem espinhos por hectare podem resultar em até 15% da área não aproveitada, enquanto plantas espinhosas elevam essa perda para 35% da área produtiva.
Outros prejuízos incluem toxicidade aos animais, hospedagem de parasitas como carrapatos e moscas, danos físicos ao gado, alelopatia (inibição química de outras plantas), dificuldade no manejo de animais devido à barreira visual, e maior mortalidade de bezerros recém-nascidos em pastos sujos.
Plantas tóxicas: risco adicional
Além da competição, algumas invasoras representam risco direto à vida animal. A região Norte do Brasil é a que sofre maiores prejuízos de morte de bovinos adultos, sendo que 80% das mortes na região Amazônica são causadas pela planta tóxica Palicourea marcgravii (cafezinho).
Outras espécies altamente perigosas incluem o alecrim falso, considerado uma das plantas mais tóxicas do Brasil com maior índice de letalidade, podendo matar um animal em menos de 24 horas durante sua fase de floração. A samambaia, presente em todas as regiões do país, é inteiramente tóxica e resistente ao fogo, sendo considerada uma das mais difíceis de erradicar.
A maria-mole (Senecio brasiliensis), leiteiro, barbatimão, lantana e guanxuma também figuram entre as principais plantas tóxicas que infestam pastagens brasileiras, causando desde abortos até intoxicações fatais quando ingeridas pelos animais.
Estratégias de controle e prevenção
O controle eficaz de plantas invasoras requer abordagem integrada, combinando métodos preventivos, culturais, mecânicos e químicos. A prevenção continua sendo a estratégia mais econômica: uso de sementes certificadas, escolha de forrageiras adaptadas às condições locais, calagem e preparo adequado do solo, além de manejo correto da pressão de pastejo.
O controle cultural inclui estabelecimento de pastagens com densidade adequada de plantas forrageiras, maior subdivisão dos pastos permitindo pastejo rotacionado, reposição de nutrientes através de adubação e calagem, e manejo que evite sobrepastejo especialmente na época seca.
O controle químico com herbicidas, quando necessário, deve ser criterioso e acompanhado por técnicos especializados. Roçadas mecânicas, embora ainda amplamente utilizadas, apresentam resultados insatisfatórios para a maioria das espécies perenes, que rebrotam após o corte. Este método deve ser combinado com outras estratégias para eficácia adequada.
As plantas invasoras são inimigas silenciosas porque avançam quando o sistema está desequilibrado. Identificar as causas, adotar práticas preventivas e agir de forma integrada são atitudes essenciais para manter a pastagem produtiva e o sistema pecuário eficiente.
No campo, produtividade começa no chão — e pastagem bem manejada não dá espaço para invasoras.
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Autor:
Eduarda Viana
Zootecnista
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