O El Niño não significa “mais chuva” nem “mais seca” para todo mundo. Ele divide o país

A La Niña que marcou 2025 acabou. O Pacífico está em fase de neutralidade — mas é uma trégua curta. Os modelos do CPC/NOAA já apontam mais de 60% de chance de El Niño no trimestre junho-julho-agosto, probabilidade que ultrapassa 80% a partir de agosto e segue alta até o fim do ano. Há quem fale em um El Niño forte.

Para a pecuária, o ponto importante não é a sigla. É que o segundo semestre vem com um padrão climático bem definido — e quem se antecipa agora chega em agosto com o problema resolvido, não com ele dentro da porteira.

Não é um clima só: é o Brasil partido ao meio

O El Niño não significa “mais chuva” nem “mais seca” para todo mundo. Ele divide o país.

No Sul e parte do Sudeste, a tendência é de chuva acima da média — persistente e irregular. No Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste, o risco é o oposto: estiagem mais severa. E em todo o país, o inverno tende a ser mais ameno, com julho e agosto registrando temperaturas acima da média.

Cada cenário cobra um preparo diferente.

Onde sobra água: o inimigo é a lama

Chuva persistente no Sul não derruba o rebanho de uma vez — ela corrói aos poucos, em três frentes:

Casco e locomoção. Piquetes e corredores encharcados são porta de entrada para dermatite digital e problemas de casco. Vaca mancando come menos, anda menos e produz menos.

Mastite ambiental. Cama úmida, barro e curral sujo elevam a carga bacteriana. O reflexo aparece na CCS e na CBT semanas depois — quando o estrago já está no tanque.

Volumoso na hora errada. Excesso de chuva fecha a janela de colheita de silagem e feno e atrasa o plantio das forrageiras de verão. Pastagem encharcada perde qualidade e lixivia nutrientes.

Onde falta água: o inimigo é o vazio do cocho

No Norte e Nordeste, o El Niño aprofunda a seca. A pastagem entra em déficit mais cedo e por mais tempo, e a conta da suplementação chega antes do esperado. Aqui, antecipar significa fechar agora o balanço entre o que o rebanho vai exigir e o volumoso que existe em estoque — antes que o preço do concentrado e do volumoso de mercado dispare junto com a demanda.

O que dá para fazer agora — em junho, não em setembro

  • Fechar o estoque de volumoso. Calcule a demanda do rebanho para o semestre e confirme se a reserva cobre o cenário da sua região. Sobra de chuva ou falta dela, o resultado é o mesmo: menos pasto de qualidade.
  • Antecipar a infraestrutura. Drenagem de corredores e áreas de espera no Sul; acesso confiável à água e sombra onde vai faltar chuva.
  • Reforçar o calendário sanitário. Umidade puxa carga parasitária e fúngica; seca e calor mexem com o conforto térmico. O protocolo do semestre tem que considerar isso.
  • Registrar para comparar. O impacto do clima só vira decisão quando você consegue cruzar o que aconteceu lá fora com o que mudou no rebanho.

É nesse último ponto que o clima deixa de ser desculpa e vira informação. Quando a queda de produção, o pico de CCS ou o aumento de casos de casco estão registrados e datados, fica claro o que foi efeito do El Niño e o que foi manejo — e a correção do próximo semestre parte de dado, não de memória.

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Autor:

Eduarda Viana

Zootecnista

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