A primavera engana porque o sinal visual (pasto verde, gado pastejando) é positivo justamente quando o resultado pode estar negativo.
Com as chuvas voltando, o capim rebrota, o pasto fica verde e vem o alívio depois de meses de seca. Só que a transição seca-águas é uma das fases de maior risco nutricional do ano. O problema não é falta de comida. É a mudança brusca no tipo de comida, somada a decisões tomadas pelo que o olho vê, e não pelo que o rebanho realmente consome.
Quem já acompanhou pesagem em outubro conhece a cena. O pasto está verde, o gado passa o dia pastejando e, mesmo assim, o ganho de peso não aparece. Às vezes o lote até perde peso. A seguir, os quatro ajustes que evitam esse prejuízo e o raciocínio por trás de cada um.
Por que o pasto verde pode derrubar o desempenho
No fim da seca, a forragem é fibrosa e pobre em proteína. Com a diminuição das chuvas, o teor de proteína do pasto pode cair de 8–10% para menos de 6%, enquanto a fibra aumenta. Em avaliações com braquiária brizantha, foram encontrados de 5,3 a 10,4% de PB em amostras coletadas em junho e julho de três anos consecutivos. SciELO Brazil
Quando a chuva volta, o perfil se inverte. O capim forma perfilhos e folhas jovens com muita água e pouca matéria seca, a fibra cai e a proteína sobe. Boa parte dessa proteína é nitrogênio não proteico, rapidamente usado pelos microrganismos do rúmen. Agroceres Multimix
O efeito prático é contraintuitivo. Mesmo pastejando de 8 a 12 horas por dia, o bovino colhe pouca matéria seca, e o consumo de suplemento também costuma cair nessa fase, o que agrava o problema. O pasto parece farto, mas o animal está em déficit. Agroceres Multimix
1. Adapte a dieta aos poucos, não de uma vez
O erro mais comum da primavera é tratar o primeiro verde como o fim da seca. O produtor tira o suplemento, abre as porteiras e deixa o gado buscar a rebrota. Nas duas primeiras semanas, o animal troca um pasto seco, que pelo menos enchia o rúmen, por folhas tenras com muita água e pouca fibra.
A diarreia dessa época é o sinal mais visível disso. Como a primeira rebrota é pobre em fibra, esse problema é muito comum nessa época do ano, e aparece com mais frequência em propriedades que trabalham acima da taxa de lotação. A consequência menos visível é pior: a perda de ganho que ninguém mede até a próxima pesagem. Boisaude
A transição precisa ser gradual, e o jeito de fazer isso depende do sistema:
- Corte a pasto: mantenha o suplemento até o pasto ter massa de verdade, não só cor. Pastos com resíduo seco ajudam, porque o material velho funciona como fonte de fibra enquanto a rebrota se forma. Para a recria, uma estratégia eficaz nessa fase é o sequestro dos animais, retirando-os do pasto e mantendo-os confinados até a pastagem se estabelecer. Agroceres Multimix
- Leite: reduza o volumoso de cocho (silagem, cana, capineira) aos poucos, ao longo de alguns dias, em vez de cortar de uma vez quando o piquete verdeja. Acompanhe fezes, ruminação e produção diária.
2. Reequilibre a relação proteína:energia
Pasto jovem tem proteína degradável no rúmen (PDR) em excesso para a energia disponível. Sem energia suficiente, os microrganismos não aproveitam todo esse nitrogênio. A amônia sobra, é convertida em ureia no fígado e sai pela urina. É proteína que o animal comeu e não aproveitou.
Além de desperdiçar proteína, esse excesso custa energia. Segundo material da Embrapa, a ingestão excessiva de proteína eleva a exigência de energia em 13,3 kcal por grama de nitrogênio em excesso. Ou seja, o animal gasta energia, que já está escassa nessa fase, para eliminar a proteína que sobrou. embrapa
No leite, dá para medir. O nitrogênio ureico no leite (NUL) mostra se proteína e energia estão sincronizadas. A faixa considerada ideal para bovinos fica entre 10 e 16 mg/dL. Valores acima de 18 mg/dL podem indicar excesso de proteína, baixa fermentação de carboidratos não fibrosos ou relação proteína:energia elevada. O impacto vai além do tanque: em um estudo, vacas com NUL acima de 15,4 mg/dL tiveram menor probabilidade de ficar prenhes. Na primavera, pedir NUL no laticínio ou no laboratório é um dos ajustes mais baratos que existem. ufcg.edu.br +2
No corte, o indicador é o GMD por lote. Nessa fase, uma suplementação com mais energia e menos proteína ajuda a sincronizar o nitrogênio do pasto com a atividade microbiana. O suplemento proteico da seca, mantido sem ajuste, pode não ser a formulação certa para o pasto novo.
3. Ajuste a lotação ao ritmo do capim, não ao volume que você vê
O crescimento rápido do pasto engana. Mais verde não significa que a capacidade de suporte já subiu na mesma proporção. São as folhas novas que captam luz e gás carbônico para o crescimento da planta. Quando o gado as consome cedo demais, atrasa a formação de um pasto bem estruturado para as águas. Agroceres Multimix
Esse é o custo escondido da primavera. Colocar gado cedo demais na rebrota não prejudica só outubro. Prejudica a produção de forragem de toda a estação das águas, que é justamente quando a fazenda deveria fazer a maior parte do ganho de peso do ano.
Algumas orientações práticas:
- No rotacionado, entre e saia dos piquetes pela altura do pasto, não pelo calendário. Na rebrota, o intervalo real entre pastejos muda de uma semana para outra.
- Trate as áreas de forma separada. Baixada, encosta e pasto adubado rebrotam em ritmos diferentes. Uma lotação única para a fazenda inteira sobrepasteja umas áreas e desperdiça forragem em outras.
- Se faltar pasto para toda a lotação, a decisão precisa ser consciente: segurar mais tempo no cocho, vender antes ou alugar área. O que não funciona é deixar o pasto resolver sozinho.
4. Reforce o controle parasitário, mas na hora certa
A chuva e o calor favorecem as larvas no pasto. Em grande parte do Brasil, 90 a 95% dos vermes estão na pastagem durante o período chuvoso. Por isso, vermifugar nessa época tem pouco efeito, já que a reinfecção é alta. Blog
Por isso, a lógica recomendada pela Embrapa é concentrar o controle na seca. Dos animais desmamados até os 24–30 meses, fase em que a verminose causa mais prejuízo, as doses devem cobrir o período seco, em maio, julho e setembro. A primavera tem duas exceções previstas: para bois de engorda, recomenda-se vermifugar em outubro ou novembro, quando entram em pastagens vedadas; para vacas, em julho e agosto, antes do pico de parição no Brasil Central. RehagroRehagro
O “reforço” da primavera, então, não é vermifugar mais. É conferir se o controle da seca funcionou. Fazer OPG de cada animal não é viável na maioria das fazendas. O exame pode ser feito em pool, por categoria, lote ou pastagem, e também ajuda a diagnosticar resistência a vermífugos. Comece pelas categorias mais sensíveis, como bezerros, garrotes e novilhas. Trate de forma tática apenas onde o OPG indicar necessidade. Vermifugar o rebanho inteiro no meio das águas gasta dinheiro e acelera a resistência. O Presente Rural
Quanto custa errar a transição seca-águas
Uma conta simples ajuda a dimensionar o problema. Os números abaixo são ilustrativos. Imagine um lote de 200 garrotes em recria que, por causa da transição mal conduzida (suplemento cortado cedo e entrada precoce na rebrota), fica 15 dias sem ganhar peso, quando deveria ganhar 0,5 kg por dia:
200 animais × 0,5 kg × 15 dias = 1.500 kg de peso vivo, ou cerca de 50 arrobas, considerando 30 kg de peso vivo por arroba.
Esse peso não volta de graça. Ou o animal sai mais tarde para o abate, ocupando pasto e capital por mais tempo, ou sai mais leve. E essa conta ainda não inclui o pasto que foi prejudicado e vai produzir menos o resto da estação.
Como saber se a transição está funcionando
A primavera engana porque o sinal visual (pasto verde, gado pastejando) é positivo justamente quando o resultado pode estar negativo. Por isso, quatro indicadores valem mais que a impressão:
- GMD por lote, com pesagem no início e no meio da transição
- Altura do pasto e lotação por piquete, e não a média da fazenda
- Consumo de suplemento no cocho, já que uma queda brusca pode indicar que o gado está correndo atrás do verde
- NUL, no leite, e OPG por categoria, em todos os rebanhos
Perguntas frequentes sobre a transição seca-águas
Quando começa a transição seca-águas?
No Brasil Central, em geral entre setembro e outubro, com as primeiras chuvas. O critério que importa, porém, não é a data. É quando o pasto recupera massa suficiente para sustentar o rebanho.
Posso tirar o suplemento assim que o pasto ficar verde?
Não é o recomendado. Nas primeiras semanas de rebrota, o animal colhe pouca matéria seca, mesmo passando muitas horas pastejando. A retirada ou troca do suplemento deve acompanhar a massa de forragem, não a cor do pasto.
Por que o gado tem diarreia no início das chuvas?
Porque a primeira rebrota tem muita água e pouca fibra. O problema é mais frequente em áreas com lotação acima da capacidade do pasto.
Devo vermifugar o rebanho no início das águas?
Em geral, não o rebanho todo. O controle estratégico se concentra na seca. Na primavera, as exceções previstas são bois de engorda entrando em pastos vedados e tratamentos táticos orientados por OPG por categoria. Consulte sempre o médico-veterinário da fazenda.
Transição que funciona x transição que só parece funcionar
A diferença entre as duas raramente aparece a olho nu. No Esteio Gestão, você acompanha a lotação por piquete, cruza com o desempenho de cada lote e registra suplementação e sanidade por categoria. Assim, fica claro se a transição está dando resultado ou só parecendo que está.
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Autor:
Eduarda Viana
Zootecnista
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