As mudanças climáticas já estão afetando a produção pecuária, com eventos extremos ocorrendo com frequência e intensidade crescentes
A produção de forragem, alicerce da pecuária extensiva e semi-intensiva brasileira, encontra-se em uma encruzilhada histórica. As mudanças climáticas já estão afetando a produção pecuária, com eventos extremos ocorrendo com frequência e intensidade crescentes. Este cenário, anteriormente projetado para décadas futuras, manifesta-se hoje com implicações diretas sobre a sustentabilidade e a viabilidade econômica da atividade pecuária nacional.
O novo regime climático e seus efeitos nas pastagens
O Brasil, com aproximadamente 160 milhões de hectares de pastagens, depende criticamente da disponibilidade forrageira para manter seu rebanho bovino de 234 milhões de cabeças. Os eventos climáticos extremos em 2024, com secas severas e queimadas, destruíram lavouras e pastagens, pressionando a oferta de alimentos. As pastagens sofreram não apenas com incêndios que prejudicaram a disponibilidade imediata de forragem, mas também com comprometimento de sua capacidade de rebrota.
Os períodos de seca prolongada e estiagem estão sendo mais frequentes, resultando em menor consumo de pasto para os animais. A situação é ainda mais crítica quando consideramos que a qualidade da forragem também declina sob estresse hídrico. As plantas enfrentam situações extremas de clima e tentam sobreviver, acumulando massa e tornando-se mais resistentes através de alterações no metabolismo. Este mecanismo de defesa vegetal, embora permita a sobrevivência da planta, resulta em forragem de menor digestibilidade e valor nutricional.
A redução da qualidade da biomassa faz com que o gado necessite de suplemento alimentar, elevando os custos de produção e comprometendo a margem de lucro dos pecuaristas. Em sistemas de cria e recria a pasto, onde a forragem representa mais de 90% da dieta animal, a degradação da qualidade forrageira impacta diretamente o desempenho produtivo e reprodutivo dos rebanhos.
Implicações para diferentes sistemas de produção
A cria é o segmento mais vulnerável aos impactos climáticos sobre a forragem. Matrizes em gestação e lactação possuem elevadas demandas nutricionais, e a oferta de forragem de baixa qualidade durante períodos críticos compromete a condição corporal, as taxas de prenhez e a sobrevivência de bezerros.
A recria e engorda a pasto dependem de taxas de ganho de peso diárias adequadas para atingir peso de abate em idade econômica. Más condições das pastagens devido às secas podem gerar prejuízos no rebanho de corte por conta de perda de peso, reflexo da má alimentação animal. Animais em crescimento, com elevada demanda por nutrientes, são particularmente sensíveis à qualidade forrageira.
Durante períodos de seca, não é incomum observar ganhos de peso negativos em sistemas exclusivamente a pasto, com animais perdendo 0,3 a 0,5 kg/dia. Esta perda de peso representa retrocesso no ciclo produtivo, exigindo períodos mais longos para atingir peso de abate e elevando custos de produção.
Estratégias de adaptação e mitigação para manejo de forragem
Dadas essas evidências, torna-se essencial que o técnico ou o gestor de fazenda inclua no planejamento estratégias para adaptar o sistema de forragem ao cenário climático em transformação. Algumas práticas recomendadas são:
- Melhorar o solo e reabilitar pastagens degradadas: pastos com solo compactado ou pobre em nutrientes reduzem a resiliência frente à seca ou calor. A adubação, correção de acidez e manejo adequado contribuem para aumentar a produtividade e estabilidade da forragem.
- Diversificar espécies forrageiras: incorporar gramíneas mais resistentes ao calor/seca, leguminosas tropicais, espécies de perfil C3 ou misturas que aumentem a resiliência. A adoção de “forage menus” (diferentes espécies adaptadas a condicionantes climáticos) é uma tática apontada por em documentos da Embrapa.
- Planejamento de estoques de forragem e suplementação estratégica: diante de maior variabilidade climática, ter reserva de volumoso, realizar silagem, antecipar suplementação nos períodos críticos ou programar alternativas de alimentação tornam-se imprescindíveis.
- Uso de tecnologia e monitoramento: ferramentas de gestão de pastagem, sensores de solo, previsões climáticas e indicadores de desempenho ajudam a ajustar o sistema rapidamente frente à variabilidade.
- Integração lavoura-pecuária ou sistemas silvipastoris: Em alguns casos, integrar árvores, sombra ou sistemas mistos pode reduzir o estresse térmico das plantas forrageiras e do rebanho, melhorando a eficiência produtiva e aumentando a resiliência do sistema.
As mudanças climáticas não são um cenário futuro distante — já estão afetando hoje a produção de forragem e, por consequência, a produtividade da pecuária de pasto. A adaptação não é opcional, mas imperativa. Pecuaristas, técnicos e pesquisadores devem trabalhar conjuntamente no desenvolvimento e implementação de estratégias que confiram resiliência aos sistemas produtivos. A combinação de práticas conservacionistas, diversificação forrageira, adoção de tecnologias de manejo e sistemas integrados representa o caminho para uma pecuária sustentável e produtiva em cenário de mudanças climáticas.
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Autor:
Eduarda Viana
Zootecnista
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