Uma lacuna no transporte pode colocar em risco o resultado de um ano inteiro de trabalho

Rendimento de carcaça costuma ser tratado como resultado de genética e dieta. É isso — mas não só isso. Uma parte relevante do rendimento se perde (ou se preserva) nas últimas 24 a 48 horas antes do abate, num período que a maioria das análises de resultado da fazenda nem considera.

O dado que deveria incomodar mais gente

Um estudo conduzido em matadouro-frigorífico no norte do Mato Grosso avaliou 1.021 bovinos e identificou que 433 deles — 42,4% do total — apresentavam lesões de carcaça relacionadas a transporte e manejo pré-abate. Em outro levantamento, a estimativa de perda anual por esse tipo de problema, num frigorífico de médio porte, chegou à casa dos R$ 200 mil. Isso não é estatística de “acidente raro”. É padrão recorrente, presente em quase metade dos lotes avaliados.

Onde o dano realmente acontece

O transporte é apontado como a segunda maior causa de lesão em carcaça, associado à alta densidade de animais no caminhão, contusões e quedas durante o trajeto. No Brasil, a densidade de carga usual fica entre 390 e 410 kg/m² — cargas fora dessa faixa, para mais ou para menos, aumentam o risco de contusão, queda e estresse. Estudo conduzido no Pantanal conseguiu estimar, inclusive, em qual etapa do manejo ou transporte a lesão ocorreu — e concluiu que a maior parte do dano acontece nas últimas 24 horas antes do abate. Ou seja: o manejo do dia do embarque pesa mais no resultado final do que boa parte do manejo nutricional dos meses anteriores.

O ponto contraintuitivo: jejum antes do embarque não ajuda, prejudica

Existe um hábito comum que parece prudente e não é: deixar o animal em jejum antes de embarcar, “pra viajar com o bicho mais leve e mais calmo”. Na prática, qualquer alteração no jejum pode significar perda de 0,5 a 1,0 arroba de peso vivo, e o animal em jejum fica mais faminto, mais estressado e mais reativo no manejo de curral — o que aumenta, e não reduz, o risco de briga no lote e de hematoma na carcaça. Em viagens acima de oito horas sem as condições adequadas, a perda de peso pode chegar de 8% a 10%; no trajeto padrão fazenda–frigorífico, a chamada “quebra de transporte” gira em torno de 6% mesmo em condições normais. O problema realmente grave começa quando o jejum ultrapassa 24 horas — a legislação brasileira permite até 12 horas — porque a partir daí há perda de fluidos extracelulares que compromete diretamente o rendimento de carcaça, não apenas o peso vivo. Manter o animal alimentado até próximo do embarque, principalmente em trajetos longos ou com risco de atraso na estrada, é a prática que a literatura técnica recomenda — e que contraria boa parte do costume de fazenda.

Por que isso derruba rendimento, e não só “machuca o animal”

Hematomas são removidos na toalete da linha de abate — o que reduz peso e valor comercial direto da peça. Mas o efeito vai além do corte descartado: animal estressado no pré-abate tem alteração no metabolismo post-mortem, na velocidade da glicólise muscular e no nível de acidez da carne, o que compromete tempo de conservação e favorece contaminação microbiana precoce. O estresse não aparece só na balança — aparece na qualidade e na validade comercial do produto final.

O que costuma ser ignorado na gestão da fazenda

Separar lotes por grupo social de convívio antes do embarque, evitar mistura de animais desconhecidos no curral, respeitar a densidade de carga recomendada, manter o animal alimentado até próximo da viagem, e conhecer a experiência do motorista responsável pelo transporte têm impacto direto e mensurável no rendimento final — muitas vezes mais impacto do que ajustes finos de dieta na reta final da terminação. É um ponto de gestão barato de corrigir e caro de ignorar.

A reflexão que fica

Se a fazenda mede genética, peso, conversão alimentar e ganho de peso diário com rigor, mas não tem nenhum controle sobre como o lote é embarcado, alimentado antes da viagem e transportado, existe uma lacuna de gestão bem no fim do processo — exatamente onde parte do resultado do ano inteiro pode ser perdida em poucas horas, por um hábito que muita gente ainda considera boa prática.

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Autor:

Eduarda Viana

Zootecnista

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