A qualidade da silagem que chega ao cocho é determinada por uma cadeia ininterrupta de decisões e práticas de manejo, desde a escolha do momento adequado de colheita até a vedação final do silo

A qualidade da silagem que chega ao cocho dos animais é resultado direto de uma série de decisões tomadas desde o momento da colheita da forragem. O processo de ensilagem, embora pareça simples à primeira vista, envolve uma complexa cadeia de eventos microbiológicos e bioquímicos que determinam o valor nutricional final do alimento. Compreender esses mecanismos é fundamental para maximizar o retorno do investimento na produção de volumoso e garantir o desempenho adequado do rebanho.

O ponto de colheita: o primeiro determinante da qualidade

A decisão sobre quando colher a forragem representa o primeiro e talvez mais crítico ponto de controle na produção de silagem de qualidade. Para o milho, cultura mais utilizada para ensilagem no Brasil, o ponto ideal de colheita situa-se entre 32% e 35% de matéria seca (MS) da planta inteira. Neste estágio, os grãos encontram-se no estádio farináceo a farináceo-duro, com a linha do leite entre 1/2 e 2/3 do grão.

Colheitas realizadas precocemente, com teores de MS abaixo de 30%, resultam em silagens excessivamente úmidas. Isso favorece o desenvolvimento de clostrídios, microrganismos indesejáveis que promovem fermentações secundárias, produzindo ácido butírico e aminas biogênicas. Essas substâncias não apenas reduzem a palatabilidade da silagem, como também diminuem o consumo voluntário pelos animais e podem comprometer a saúde do rebanho.

Por outro lado, forragens colhidas tardiamente, com MS acima de 38%, apresentam dificuldades de compactação adequada. A estrutura mais rígida da planta impede a eliminação eficiente do ar durante o processo de compactação, criando condições aeróbicas que favorecem o desenvolvimento de fungos e leveduras, comprometendo a estabilidade aeróbica da silagem após a abertura do silo.

Tamanho de partícula e processamento: otimizando a digestibilidade

O tamanho de partícula da forragem ensilada exerce influência direta tanto no processo fermentativo quanto na digestibilidade da silagem. Partículas muito longas, superiores a 20 mm, dificultam a compactação adequada, favorecendo a presença de oxigênio residual no silo. Já partículas excessivamente pequenas, abaixo de 5 mm, podem comprometer a efetividade da fibra, resultando em problemas de ruminação e acidose ruminal.

O tamanho ideal para ensilagem de milho situa-se entre 10 e 15 mm de comprimento teórico de corte. No entanto, esse parâmetro deve ser ajustado conforme o teor de MS da forragem: materiais mais secos exigem partículas menores para facilitar a compactação, enquanto materiais mais úmidos podem ser picados em partículas ligeiramente maiores.

O processamento dos grãos representa outro ponto crucial, especialmente em híbridos de textura vítrea. Grãos inadequadamente processados podem atravessar o trato digestivo dos animais praticamente intactos, desperdiçando energia e amido que poderiam ser aproveitados. A recomendação técnica é que ao menos 70% dos grãos apresentem algum grau de quebra, com fragmentos entre 4 e 6 mm para silagens que serão fornecidas a bovinos de leite.

A compactação: expulsando o oxigênio

A fase de compactação é frequentemente subestimada, mas representa elemento determinante na qualidade final da silagem. O objetivo principal é eliminar o máximo possível de oxigênio do meio, criando condições anaeróbicas essenciais para o desenvolvimento das bactérias ácido-láticas desejáveis.

A densidade ideal para silagem de milho situa-se entre 650 e 750 kg de MS/m³. Densidades inferiores resultam em maior presença de oxigênio residual, prolongando a fase aeróbica inicial e elevando as perdas por respiração celular. Isso se traduz em aumento da temperatura da massa, consumo de carboidratos solúveis e redução do valor nutritivo.

Para alcançar compactação adequada, recomenda-se que o peso do trator compactador seja equivalente a, no mínimo, um terço da taxa de enchimento horária (em toneladas). Por exemplo, se a colhedora entrega 60 toneladas de forragem fresca por hora ao silo, o trator compactador deve pesar pelo menos 20 toneladas. A espessura das camadas não deve ultrapassar 20 cm, e o tempo de compactação deve ser de 3 a 4 minutos por camada.

A vedação: protegendo o processo fermentativo

Após o enchimento completo do silo, a vedação adequada é crucial para manter as condições anaeróbicas conquistadas durante a compactação. A entrada de ar através de vedação deficiente compromete todo o processo fermentativo, permitindo o desenvolvimento de microrganismos aeróbicos indesejáveis.

O sistema de vedação dupla, utilizando filme plástico de polietileno em contato direto com a forragem e lona de cobertura adicional, tem se mostrado eficiente na preservação da qualidade. A utilização de materiais inertes para ancoragem, como pneus velhos ou sacos de areia, deve garantir total cobertura da superfície, sem deixar pontos de entrada de ar.

O processo fermentativo: transformações que definem a qualidade

Uma vez estabelecidas as condições anaeróbicas, inicia-se o processo fermentativo propriamente dito. Nas primeiras horas, ainda há respiração celular residual das plantas, consumindo carboidratos e elevando ligeiramente a temperatura. Essa fase deve ser breve em silagens bem compactadas.

Posteriormente, as bactérias ácido-láticas (BAL) assumem o protagonismo, convertendo carboidratos solúveis em ácido lático, principalmente. O pH da massa decresce rapidamente, e quando atinge valores entre 3,8 e 4,2, a fermentação é inibida, estabilizando a silagem. Esse processo geralmente leva de 14 a 21 dias, período após o qual a silagem pode ser utilizada, embora períodos superiores a 30 dias sejam recomendáveis para maior homogeneização.

A qualidade da silagem que chega ao cocho é determinada por uma cadeia ininterrupta de decisões e práticas de manejo, desde a escolha do momento adequado de colheita até a vedação final do silo. Não existe uma única etapa crítica; todas são interdependentes e igualmente importantes. O domínio técnico desses processos permite ao pecuarista produzir volumoso de alta qualidade, com reflexos diretos na produtividade animal e na rentabilidade da atividade pecuária.

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Autor:

Eduarda Viana

Zootecnista

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