Os tetos mostram, todos os dias, o efeito real da ordenha sobre as vacas. Avaliá-los de forma sistemática é uma das formas mais baratas de detectar problemas na ordenhadeira e na rotina antes que eles apareçam como mastite clínica e CCS alta
Na maioria das fazendas leiteiras, a ordenhadeira só recebe atenção em dois momentos: na revisão programada do técnico ou quando alguma coisa quebra. Entre uma coisa e outra, o equipamento pode estar trabalhando fora da regulagem durante semanas, e o primeiro lugar onde isso aparece é a ponta do teto da vaca, bem antes de qualquer sinal no painel ou no manômetro.
Os tetos funcionam como um relatório diário do que a máquina está fazendo. Cor, inchaço, anel na base, abertura do esfíncter e calosidade na ponta contam se o vácuo está alto demais, se a pulsação está falhando, se a teteira está velha ou se as vacas estão sofrendo sobreordenhas. O problema é que pouca gente lê esse relatório de forma sistemática.
O erro de gestão: avaliar a máquina só pela máquina
A manutenção da ordenhadeira costuma ser tratada como uma questão mecânica: trocar peças no prazo, conferir o vácuo, revisar os pulsadores. Tudo isso é necessário, mas mede o equipamento parado ou em teste. Não mede o efeito real da ordenha sobre a vaca, que depende da combinação entre máquina, rotina dos ordenhadores e características do rebanho.
Uma ordenhadeira pode passar na revisão e, mesmo assim, machucar tetos todos os dias porque o conjunto fica tempo demais na vaca depois que o leite parou de descer. Pode também ter teteiras dentro do prazo, mas inadequadas para o formato dos tetos daquele rebanho. Nenhum desses problemas aparece num teste estático. Todos aparecem nos tetos.
O que observar logo após a ordenha
As alterações nos tetos se dividem em dois grupos: as de curto prazo, que surgem a cada ordenha e desaparecem em algumas horas, e as de longo prazo, que se acumulam ao longo de semanas.
Alterações de curto prazo
São avaliadas imediatamente após a retirada do conjunto, idealmente em até 30 segundos e antes do pós-dipping, porque somem rápido. Os principais sinais são:
- Coloração: teto normal, avermelhado ou arroxeado. A cor azulada ou roxa indica congestão mais severa.
- Inchaço e firmeza: teto ou ponta do teto endurecidos, em vez de macios.
- Anel na base do teto: marca visível ou, em casos mais graves, palpável onde o bocal da teteira pressionou.
- Abertura do orifício: esfíncter que permanece aberto depois da ordenha.
Segundo o guia de avaliação de tetos do NADIS, que segue os critérios do grupo internacional de pesquisa em condição de tetos, quando mais de 10% dos tetos avaliados apresentam essas alterações, há necessidade de intervenção.
Alterações de longo prazo: hiperqueratose
A hiperqueratose é o espessamento da pele na ponta do teto, formando um anel de queratina em volta do orifício. Um anel fino e liso é normal e até protetor. O problema começa quando ele fica áspero, com fragmentos de queratina soltos, e evolui para rachaduras.
A classificação mais utilizada tem quatro níveis:
| Escore | Descrição |
|---|---|
| N | Sem anel ou anel liso, orifício pequeno e regular |
| S | Anel levemente áspero, sem fragmentos de queratina |
| R | Anel áspero, com fragmentos de queratina de 1 a 3 mm |
| VR | Anel muito áspero, fragmentos acima de 4 mm, frequentemente com rachaduras |
A referência de alerta é: mais de 20% dos tetos com escore R ou VR, ou mais de 10% com escore VR. Acima desses níveis, máquina e rotina de ordenha devem ser investigadas.
O que cada sinal sugere sobre o equipamento e a rotina
Nenhum sinal isolado aponta uma causa única, mas alguns padrões ajudam a direcionar a investigação:
- Vácuo alto: associado a alteração de cor, anel na base, endurecimento e orifício aberto.
- Pulsação com falha ou fase de massagem curta: a teteira não fecha o suficiente para aliviar o teto, o que gera congestão, cor alterada e endurecimento.
- Teteiras velhas ou incompatíveis com o tamanho dos tetos: alteram cor, formam anel e prejudicam o fechamento do orifício. Teteira com bocal muito rígido ou de diâmetro pequeno também favorece o anel na base.
- Sobreordenha: o conjunto continua acoplado depois que o fluxo de leite caiu. O teto fica exposto ao vácuo sem leite para amortecer, e o resultado é cor alterada, anel, endurecimento e, ao longo do tempo, hiperqueratose.
- Teteira subindo no teto: quando o conjunto “escala” o teto no fim da ordenha, a principal marca é o anel na base.
A sobreordenha merece atenção especial porque depende mais da rotina do que da máquina. Ela aumenta quando a preparação da vaca é insuficiente, a descida do leite atrasa e o conjunto é colocado antes de a vaca estar pronta, ou quando o extrator automático está mal regulado. A cartilha da Embrapa Gado de Leite sobre ordenha mecânica orienta: ao fim da ordenha, fechar o vácuo, aguardar de três a cinco segundos e só então retirar o conjunto, sem puxar e sem colocar peso sobre as teteiras para acelerar a ordenha.
Nem toda alteração é culpa da máquina
Seria simplista atribuir toda hiperqueratose ao equipamento. O acompanhamento de Neijenhuis e colaboradores em 15 fazendas holandesas, com avaliações mensais por um ano e meio, mostrou que outros fatores também pesam:
- Formato do teto: tetos de ponta afinada tiveram escores de espessura e aspereza mais altos do que tetos de ponta plana ou invertida.
- Produção: quanto maior a produtividade da vaca no pico de lactação, maior o desafio. O estudo apontou que, a cada 10 kg adicionais de leite na produção diária de um animal em relação a outro, o teto apresenta maior espessura e aspereza no anel, reflexo do maior tempo total sob vácuo necessário para a ordenha.
- Fase da lactação: a calosidade aumenta até cerca do quarto mês de lactação e diminui depois disso.
Clima frio e com vento, além de produtos de pós-dipping sem agentes emolientes, também agravam o ressecamento e as rachaduras.
Por isso, a avaliação dos tetos deve ser interpretada considerando o rebanho. Um aumento repentino de hiperqueratose num grupo de vacas com perfil estável aponta para mudança na máquina ou na rotina. Uma hiperqueratose concentrada em vacas de alta produção, com tetos afinados, pode exigir ajustes diferentes, como revisão do tempo de ordenha e do tipo de teteira.
Por que isso pesa no resultado econômico
A ponta do teto é a principal barreira contra a entrada de bactérias no úbere. Quando o esfíncter fica aberto por mais tempo ou a pele está áspera e rachada, a colonização por bactérias aumenta e a limpeza fica mais difícil.
Neijenhuis e colaboradores encontraram que tetos com anel de calosidade espesso e áspero mais que dobraram a probabilidade de mastite clínica no mês seguinte da lactação. Curiosamente, tetos sem nenhum anel também tiveram probabilidade maior. O menor risco ficou com o anel fino e liso. Ou seja, um pouco de calosidade é normal; o que preocupa é o anel espesso e áspero.
Cada caso de mastite clínica gera custo com medicamento, leite descartado durante o tratamento e a carência, mão de obra, risco de perda do quarto e, em casos recorrentes, descarte precoce da vaca. Além disso, infecções subclínicas elevam a CCS do tanque, que pode resultar em penalização no pagamento por qualidade, dependendo do laticínio. Quando o problema está na máquina ou na rotina, ele atinge o rebanho inteiro, em todas as ordenhas, todos os dias. É um gargalo silencioso.
Como fazer a avaliação na prática
Uma avaliação útil não precisa ser complexa, mas precisa ser sistemática:
- Quantos animais: avaliar todos os tetos de pelo menos 80 vacas ou 20% do rebanho (em rebanhos com menos de 80 vacas em lactação, avaliar todas), incluindo vacas de diferentes lotes, fases de lactação e ordens de parto.
- Quando: logo após a retirada do conjunto, em até 30 segundos, antes do pós-dipping.
- Com que frequência: pelo menos uma vez por mês e sempre antes e depois de qualquer mudança no equipamento (troca de teteiras, ajuste de vácuo, novo extrator) ou na rotina (novo ordenhador, mudança na preparação).
- Como registrar: escore por teto e por vaca, com a data. Uma vaca com um ou mais tetos problemáticos conta como vaca-problema.
Com dois ou três meses de registros, já é possível acompanhar a porcentagem de tetos R e VR ao longo do tempo e ver como ela responde às mudanças feitas.
Transformando a observação em indicador de gestão
O ganho real vem quando a condição dos tetos deixa de ser uma impressão (“os tetos estão meio ruins”) e passa a ser um número acompanhado ao lado de outros indicadores. Cruzar a porcentagem de tetos com hiperqueratose com a CCS do tanque, a incidência de mastite clínica, as datas de manutenção da ordenhadeira e de troca de teteiras e as mudanças de equipe permite responder perguntas que hoje ficam sem resposta: a mastite aumentou depois da troca de ordenhador? A troca de teteiras melhorou os tetos em quanto tempo? Vale ajustar o extrator automático?
Sem esse cruzamento, cada problema é tratado isoladamente: o veterinário trata mastite, o técnico regula a máquina, o ordenhador segue a rotina. Com os dados juntos, fica claro onde está a causa.
Conclusão
Os tetos mostram, todos os dias, o efeito real da ordenha sobre as vacas. Avaliá-los de forma sistemática é uma das formas mais baratas de detectar problemas na ordenhadeira e na rotina antes que eles apareçam como mastite clínica e CCS alta. O que separa uma fazenda que reage a problemas de uma que se antecipa é ter esse indicador registrado e comparado ao longo do tempo.
No Esteio Gestão, você registra casos de mastite, CCS, manutenções e observações de rotina no mesmo lugar, e consegue enxergar a relação entre elas, em vez de tratar cada problema de forma isolada.
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Autor:
Eduarda Viana
Zootecnista
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